O partido de dois lados e a agência de dois partidos

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        Há mais de ano, não se fala em outro assunto nos noticiários piauienses a não ser a sucessão ao governo do estado e as eleições do próximo outubro. Falta de assunto? Não sei. Mas o que observo é que na mídia nacional e em alguns estados a pauta eleições 2010 não aparece com tanta intensidade como por aqui. Provavelmente eles têm mais o que mostrar. Não entrarei nesse mérito jornalístico.

       Dentre as inúmeras especulações anunciadas pelos meios de comunicação piauienses algumas já são dadas como certas. O senador João Vicente Claudino, do PTB, sai candidato pela situação com o apoio do atual governador, Wellington Dias e do Partido dos Trabalhadores (PT), ou pelo menos parte dele (não me admira se o PT vier a se tornar um PMDB: um partido dividido, parte oposição, parte situação). Pela oposição já está praticamente definida a candidatura do Prefeito de Teresina, Silvio Mendes, do PSDB. João Vicente (PTB) e Silvio (PSDB) são os mais bem colocados em todas as pesquisas realizadas até agora.

       A peculiaridade desse fato é que o atual vice de Silvio Mendes na prefeitura da capital é Elmano Ferrer, do PTB. Se Sílvio sair candidato, Ferrer se torna o prefeito de Teresina. E já imaginou como serão as campanhas eleitorais? PTB e PSDB duelando pelo governo estadual, enquanto que a menos de dois anos eram aliados na campanha pela prefeitura de Teresina. O PTB vai ter respaldo para criticar o PSDB e vice-versa? Uma prévia disso já pode ser vista esta semana num debate no Jornal do Piauí, da TV Cidade Verde. Lá, o deputado estadual Paulo Vilarinho, do PTB, começou a criticar a prefeitura de Teresina, apontando alguns defeitos. O deputado Marden Menezes, do PSDB, presente do debate, logo retrucou: “Ora deputado, esquece o senhor que o PTB faz parte da prefeitura. Tem o vice-prefeito e algumas secretarias, sendo responsável também pelo o que acontece na cidade”. Vilarinho deu um tiro no pé.

        E com um pé no governo estadual do PT e o outro na prefeitura de Teresina do PSDB, o PTB encontra-se num mato sem cachorro. Vai lançar-se ao governo do estado com o apoio do PT, mas se criticar o candidato da oposição, Silvio Mendes, vai estar entrando em conflito consigo mesmo. Essa incoerência provavelmente será percebida pela população e pode ser o grande trunfo para a vitória do PSDB. Não é minha intenção neste artigo fazer uma análise política partidária. Não sou ligado a nenhuma sigla e apenas estou expondo um ponto de vista.

        Vamos ao assunto que realmente posso dizer que entendo um pouquinho. Comparo a S/A Propaganda ao PTB, pois assim como o partido político, a agência possui afinidade com as duas esferas governamentais. Ela presta serviços de comunicação para o governo do estado e para a prefeitura de Teresina. Ou seja, cria comerciais enaltecendo as ações governamentais petistas e anúncios mostrando as bem-feitorias tucanas na prefeitura. Claro, tudo isso sob demanda das respectivas coordenadorias e secretarias de comunicação.

        No último pleito para chefe do executivo municipal , a S/A, juntamente com a Plug Propaganda, foi a responsável pela campanha de reeleição do prefeito Sílvio Mendes. Para as eleições de 2010, ao que tudo indica, a joint venture entre S/A e Plug Propaganda será novamente formada para cuidar da campanha de Sílvio ao governo. A campanha de João Vicente Claudino pode ser feita pela Sucesso Publicidade, house agency do grupo empresarial que leva seu sobrenome. Em se confirmando o apoio do PT ao candidato petebista, é possível a formação de uma joint venture entre a Sucesso e a Mídia Comunicação, agência responsável pela campanha que levou o governador Wellington Dias à reeleição em 2006. Nesse caso, certamente João Vicente se valeria dos feitos do Governo Wellington em sua campanha, mostrando o que foi feito de bom para alavancar sua candidatura.

        É bom ressaltar que uma agência de propaganda é responsável não apenas pela criação de comerciais e anúncios de um candidato, mas também por toda a estratégia a ser seguida na campanha eleitoral. Sabemos que uma campanha eleitoral é uma “guerra” feita de apresentação de propostas e críticas aos candidatos concorrentes. Da forma mais tênue que possa ser apresentada, esta segunda parte é inevitável.

        E aí, não estaria a S/A Propaganda correndo o risco de entrar em contradição ao criar uma campanha eleitoral que vá de encontro às campanhas governamentais que desenvolveu para o governo? Numa campanha para Sílvio Mendes poderia, por exemplo, criticar a falta de obras e investimentos na gestão petista, enquanto que atendendo o governo, possivelmente já criou campanhas mostrando as ações em infra-estrutura do governo no Estado.

        Ao contrário do que ocorra com o PTB, não creio que essa possibilidade de contradição possa vir a trazer prejuízos para a S/A. Pelo contrário, transitando bem pelos dois lados, os cofres da agência “tinlintam” sempre que uma campanha é solicitada, seja pelo PT ou pelo PSDB. Se é ético atender contas do mesmo segmento e ainda mais concorrentes ferrenhos, é outra história. Cabe a cada um manifestar sua opinião. O certo é que até outubro, muitas águas vão rolar.

PS1: Em nenhum momento duvido da licitude da S/A Propaganda em atender a Coordenadoria de Comunicação do Estado e a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Teresina. Em ambos os órgãos foi promovido processo licitatório, no qual, através de seus méritos, a S/A sagrou-se vitoriosa.

PS2: A título de informação, as atuais agências que prestam serviços de publicidade ao Governo do Piauí são Chroma Vídeo, S/A Propaganda, Eclética Comunicação, AMC Publicidade e Mídia Comunicação. Na prefeitura, atendem a S/A Propaganda, Plug Propaganda, Vende Publicidade e Nova Comunicação.

Um pensamento sobre “O partido de dois lados e a agência de dois partidos

  1. Uma boa reflexão, no entanto, restam as limitações de quem não quer ou não pode botar o dedo na ferida. É evidente que o fato de uma agência atender a clientes concorrentes não é recomendável. Há conflitos de interesse e isto é marca de um mercado dependente das verbas governamentais em que quem pode decidir não quer ou não pode sabe-se lá por que. Por esta e por outras é que o mercado publicitário piauiense é este samba do maluco furtacor. Todos sabemos que não se pode acender uma vela pra Deus outra pro diabo. Pior ainda, en propaganda, em especial, em propaganda política, o segredo é não apenas necessário, é impositivo.

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