A importância dos fundamentos

Esta semana Nizan Guanaes escreveu em sua coluna na Folha de S. Paulo um artigo com o título “Tudo pelo social”, no qual aborda de uma maneira simples, porém inteligente, o tão badalado e comentado “marketing nas redes sociais”.

O surgimento das redes sociais através das mídias virtuais criou nos últimos anos uma legião de pessoas que começaram a se intitular “analista de mídias sociais”. Isso me lembrou a recém febre dos DJs, na qual todo mundo começou a atacar de DJ em festas, principalmente ex-BBB’s, artistas em decadência, ex-namorados de gente famosa e pseudo-celebridades em geral.

Só que tanto para ser DJ como para ser analista de mídia social não basta apenas saber operar a máquina, ou o sistema. Daí termos uma porção de DJ apertadores de botão e analista de mídias sociais que apenas se divertem navegando e compartilhando o que veem na internet.

Redes sociais sempre existiram e sempre foram dominantes ao longo da história. Portanto, analista de mídias sociais não é uma “profissão” nova. Podemos até dizer que psicólogos, filósofos, sociólogos sempre foram analistas de mídias sociais, porque analisar mídias sociais, mais que operar sistemas é, principalmente, analisar o comportamento das pessoas.

Essa é a questão maior. Não basta dominar os sistemas. Não basta saber como criar uma fan page no Facebook, como administrar uma conta no Twitter, como aferir métricas. É preciso ir mais a fundo e conhecer os princípios gerais da comunicação, de marketing, de relações e tecnologia. Nizan bem coloca em seu artigo: “Você não precisa se tornar um especialista nessas novas ferramentas, até porque elas passam. Seja um especialista em comportamento, entenda a suprema tecnologia humana, aquilo que chamamos de alma”.

Outro ponto de vista interessante, e que corrobora com pensamento do Nizan, é o do professor Silvio Meira, renomado cientista e pesquisador. Numa extraordinária entrevista concedida ao jornalista Roberto D’Ávila, o cientista falou da importância de se conhecer os fundamentos das coisas. “Numa época em que as transformações são muito rápidas, se você se concentrar em estudar e se tornar especialista em coisas que são a superfície da mudança, isso certamente trará problemas, porque a superfície muda muito rápido. Mas as novas superfícies que surgem sempre reutilizam os mesmos fundamentos básicos”, disse Meira.

Ele cita o exemplo: na graduação seu trabalho de conclusão de curso foi sobre cartões perfurados. Quando chegou ao mestrado, ele trabalhou com mainframes, e no seu doutorado lidou com estações de trabalho, ou seja, as superfícies mudaram, evoluíram, porém sobraram os fundamentos essenciais da área de conhecimento.

Portanto, o segredo é estar sempre aprendendo, desaprendendo e reaprendendo coisas novas, sem deixar de lado os princípios fundamentais que regem o funcionamento das coisas, independentemente de sua plataforma, da evolução de sua superfície. Já fui usuário do BBS, mIRC e ICQ. Orkut até dois anos atrás era a maior comunidade virtual no Brasil. Facebook e Twitter dominam o espaço atualmente, mas até quando? Conhecer a operacionalização desses sistemas é importante sim. Observo, porém, uma porção de pessoas que se limitam a isso. E não adianta apenas dominar o sistema, tem-se que dominar todo o conceito e os fundamentos por trás do sistema, pois os sistemas mudam ao longo do tempo, mas os fundamentos não.

Dia desses levei minha namorada na casa da minha mãe. Lá tem um cantinho onde ela guarda umas velharias, dentre elas uma máquina de datilografar do início dos anos 80. A namorada olhou pra máquina e perguntou: Como se usa isso? Fiquei estupefato com a pergunta, mas ela, com seus 22 anos, estava falando sério. Nunca havia usado uma máquina daquelas, afinal já nascera na era do computador.

Meu primeiro teclado QWERTY

Meu primeiro teclado QWERTY

E, por incrível que pareça, muita gente hoje sequer viu uma máquina de escrever. Não sou tão velho assim, mas brinquei um bocado com uma Remington (ou sou tão velho assim?). Naquela época tinha cursos de datilografia. Não cheguei a fazer, mas minha mãe, que nasceu numa era em que saber datilografar abria as portas para empregos, tem lá seu certificado. E hoje, mesmo tendo nascido numa época mais propensa à adaptação da tecnologia, e junto a isso aos teclados dos computadores, não sou páreo para ela na hora da digitação. Ela digita incrivelmente rápido.

Quando minha namorada fez a pergunta “como se usa isso?”, minha mãe rapidamente procurou uma folha de papel, pôs na máquina e começou a escrever. O que era datilografar hoje se chama digitar. Os termos mudaram, as superfícies mudaram, mas os fundamentos permanecem os mesmos, e minha mãe não os esqueceu.

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Vale a pena ler: Artigo “Tudo pelo Social“, de Nizan Guanaes.
Vale a pena assistir: Entrevista de Silvio Meira no Conexão Roberto D’Avila.

Um pensamento sobre “A importância dos fundamentos

  1. Olá Breno, gostei muito do teu artigo. Sou estudante de publicidade e propaganda e quero fazer um artigo científico. Então lhe pergunto, quais autores você pode me citar com referencia a seu texto acima, autores que falam sobre isso, defendem essas transformações… Aguardo seu retorno, obrigado! Att William Brito

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